TAO TE CHING
O LIVRO DO CAMINHO E DA
VIRTUDE
LAO TSE, o Mestre do Tao
Tradução e Interpretação do
Capítulo 26
do Tao Te Ching, de Lao Tse,
por WU JYH CHERNG
Transcrição e Síntese de Aula
Gravada na Sociedade Taoísta do Brasil,
Rio de Janeiro, em 10 de janeiro
de 1995
Capítulo 26
A ponderação torna enraizado o
leviano
A quietude torna governando o
inquieto
Por isso,
o Homem Venerável termina o
dia de caminhada
Sem se afastar da ponderação e
dos recursos.
Embora existam maravilhas em
perspectiva
Permanece quieto e
naturalmente transcende
Como pode um senhor de dez mil
veículos
Utilizar seu corpo
levianamente sob o céu?
Ao ser leviano, perderia a
raiz
Ao ser inquieto, perderia o
governo.
Este Capítulo fala da importância da quietude e da tranqüilidade.
Fala de que, quando algo é pesado, é difícil de ser removido. Quando algo é leve, é flutuante. Quando algo é sólido, é difícil de ser
balançado.
Simbolicamente, a falta desse peso refere-se à distração, à
não-convicção, à contínua mudança de opinião, à fragilidade emocional e mental.
O corpo é como um reino sendo sua consciência o rei que governa
este reino.
Ter a raiz forte significa ter uma consciência sólida. Quando falta uma consciência sólida e firmemente
enraizada, o corpo torna-se desgovernado.
Ou seja, com a falta do peso do governante, o reino fica desgovernado.
Como seria uma pessoa sem peso?
É como se flutuasse.
Mestre Maa nos fala das 4 atitudes que devem ser mantidas
distantes. São atitudes que demonstram
falta de raiz, falta de solidez:
Mesquinharia
Ansiedade
Arrogância
Superficialidade
Um governante não pode ser mesquinho, ele tem que ser abrangente,
tem que saber perder e tem que saber ganhar.
Não pode ter ansiedade. A
estabilidade de um governante imediatamente se reflete na estabilidade do
reino.
Um governante ansioso torna o povo ansioso porque suas atitudes são
mutáveis, instáveis e inquietas, aplica leis e recursos rápidos, muda leis e
decretos um atrás do outro. Projetos e
regras do jogo são mudados a cada momento.
Costumes e valores alterados a todo momento, isso gera inquietação e
instabilidade.
Por ser o governante o centro de toda a atenção e por ser uma
peça-chave de toda a engrenagem chamada reino, suas atitudes são importantes.
A arrogância é uma espécie de flutuação - falta de peso -, uma
emoção que não pode ser contida, como uma bola de ar dentro d’água.
O governante tem que saber se controlar e não ser arrogante. Porque senão, pode criar uma tragédia no
reino ou pode transformar-se numa arrogância coletiva. Essa arrogância coletiva pode levar à
histeria, à violência e ao fanatismo.
Um governante não pode ser superficial. Na superficialidade, só se constrói aquilo
que é visto, só são incentivados costumes superficiais, levando o país a se
tornar superficial.
No campo social, no campo político, esse Capítulo pode atuar
perfeitamente como um conselho para os políticos.
O Tao Te Ching é um livro altamente político.
Se prestarmos atenção, na cultura chinesa, existem três pensamentos
predominantes:
O Taoísmo
O Confuncioismo
O Budismo
Dos 3 pensamentos, um deles é a-político: o Budismo. O Budismo realmente não tem uma colocação
política explícita, porém conseguiu influenciar políticos.
O Taoísmo e o Confucionismo têm posições políticas claras.
No Confucionismo, a posição política gira em torno de um feudalismo
hierárquico e administrativo. Diz que o
que está embaixo tem que respeitar o que está acima. E o que está acima tem que ter uma conduta
nitidamente controlada por uma série de
princípios éticos que são fiscalizados por aqueles que estão no meio e embaixo.
O debaixo respeita o do meio; o do meio respeita o de cima. O do meio fiscaliza o de cima, o de baixo
fiscaliza o do meio. E assim acontece o
controle entre as relações dos superiores com os inferiores.
Essa é a regra do jogo que tem dominado na China desde os dois mil
e quinhentos últimos anos, desde Confucio até a recente revolução cultural.
A revolução cultural resolveu preservar a ditadura mas eliminou os
códigos éticos e morais que vigoravam anteriormente, como forma de dominação e
controle entre os debaixo com os de cima.
Também varreu os códigos, derrubou sos governantes do segundo
escalão para baixo e incitou todos contra todos. A ditadura permaneceu mas abalou o país
socialmente.
Mas, como o valor social nunca pode ser desmanchado, na verdade,
foi substituído por outro valor. Esse
novo valor social não é mais confucionista, ou seja, o respeito pelos mais
velhos, pelas pessoas mais virtuosas, passou a ser o temor por quem é mais
poderoso.
Dessa maneira, elogios e reverências permanecem; permanecem dentro
de uma estrutura de medo.
O Taoísmo é excessivamente democrático.
O Taoísmo trabalha na consciência.
O governante não faz a obra para si próprio. O Homem Sagrado não governa com o
coração. O Rei é mero administrador da
vontade do povo.
Nesse aspecto, o Taoísmo mostrou ser perigoso politicamente e
poucas dinastias o adotaram.
O Confucionismo foi a ideologia predominante na China.
Lao Tse dá conselhos de alerta para as pessoas que estão no poder,
quando diz:
Como pode um senhor de dez mil
veículos
Utilizar seu corpo
levianamente sob o céu?
O corpo é nosso reino. Como
podemos utilizar nossos territórios, nossos recursos naturais, de uma maneira
leviana, sob o céu? Na Terra?
Ao ser leviano, perderia a
raiz
Ao ser inquieto, perderia o
governo.
Visto de uma maneira mais simbólica, Lao Tse nos diz que a
Consciência de uma pessoa comanda todos seus movimentos. Veículo é movimento, é um instrumento da
consciência. Como um veículo,
movimenta-se de um lado para outro. As
palavras são veículos para conduzir uma idéia, um pensamento, para manifestar a
consciência do homem. Os veículos são
instrumentos que tornam a vida do homem poderosa na Terra, sob o céu, no mundo.
Se todos nós temos infinitas potencialidades de realização no
mundo, nós temos a responsabilidade perante nós mesmos.
Normalmente, o que acontece é que tendemos a anular a consciência,
ou seja, o espírito, e valorizamos excessivamente o poder e esse poder passa a
ser nocivo.
Mestre Maa diz que o coração pode ser entendido como a mente
imortal do homem. A mente do homem é o
coração do homem. Mente e emoção são os
governantes do homem.
Quando um governante não está estável, as energias do Sopro Vital,
as essências vitais não têm onde se apoiarem e nem se aglomeram.
Dessa maneira, mesmo que a pessoa, através da meditação, da prática
de Alquimia, do Mantra ou de algum outro trabalho místico - captando a energia
-, se a pessoa não tiver uma quietude emocional e mental, a energia que foi
captada não consegue se fixar. Não
conseguindo se fixar, a energia se dispersa.
Na Alquimia, primeiramente, precisamos colher a matéria-prima.
O que é a matéria-prima?
É a lucidez interior e a energia pura. Essa energia entra dentro de nós e se não
encontrar uma quietude, é dispersada e castrada por nossa inquietação.
E se estivermos muito agitados, essa energia que entra, sairá
carregada de uma emoção violenta.
Por isso, na segunda frase, Lao Tse diz:
A quietude torna governando o
inquieto
Sabendo criar o silêncio interior, mantendo a estabilidade
emocional e mental, automaticamente desgastamos menos energias vitais e
desgastamos menos essências vitais.
As energias são menos desgastadas quando encontram emoções mais
estáveis. E isso acontece na quietude
interior.
A quietude interior é exatamente o coração do homem, a raiz do seu
ser.
A quietude traz equilíbrio emocional e mental. Com o equilíbrio emocional e mental, não
desgastamos nossa energia vital nem essências vitais. Dessa maneira, temos mais saúde.
A busca da quietude é muito importante.
Muitas pessoas chamadas esotéricas não conhecem a busca da quietude
interior, o silêncio interior.
Por isso, no Taoísmo, existe um processo complexo de técnicas e
práticas místicas, com várias escolas, mas em todos, todos fazem uma prática da
meditação do silêncio.
Podem até acontecer diferenças entre uma técnica ou outra, mas
todas as escolas e práticas seguem a busca do silêncio interior.
Pode-se até não fazer nada, sem visualização, sem mentalização, sem
Portal Negro, sem chaves, sem _________
, sem _____________ , sem nada. (Nota da Transcrição: não foi possível
entender essas palavras).
Até mesmo, apenas se sentar, ficar lá, sem fazer nada, nada, nada,
nada, nada, nada, ficar fazendo um pouco de silêncio.
Literalmente, a meditação em chinês significa Sentar no
Silêncio. Entra, senta dentro do
silêncio.
Não é o silêncio que entra dentro de você, é você que entra dentro
do silêncio.
Na meditação, não nos emocionamos, não nos movimentamos, não
movimentamos nosso corpo, o corpo deve ficar parado, a mente parada, ficamos
quietinhos.
Temos que ficar quietinhos.
Pergunta: O que significa
‘ponderação’, que aparece na primeira frase? (referindo-se ao texto).
Resposta de Cherng:
Voltando ao texto, a ‘ponderação’ é uma coisa ponderada.
Devemos ser mais lentos, não tendo pressa. O mesmo que eu falava no início, quando
sentirmos o impulso de fazermos alguma coisa, devemos ponderar, sem termos
pressa. Devemos ter calma, devemos
cultivar esse valor. A ponderação tem
esse valor.
O silêncio é prática.
A ponderação torna enraizado o
leviano
O leviano é o sujeito mesquinho, pretensioso, arrogante e
superficial.
A ponderação torna enraizado o
leviano
A quietude torna governando o
inquieto
Por isso,
o Homem Venerável termina o
dia de caminhada
Sem se afastar da ponderação e
dos recursos.
Estamos, então, em frente a dois pontos:
Lao Tse nos diz que temos que ter a prática. A prática espiritual é para ser feita, feita
em cada momento do dia, em cada momento de nossa vida.
A prática da meditação tem que acontecer todos os dias.
Por isso, Lao Tse diz que o Homem Superior termina sua caminhada do
dia. Todos os dias, Ele caminha. A meditação é diária.
Sentar e meditar é uma prática mística. O caminho é diário.
O Homem Superior termina o dia de caminhada. Ele conclui sua obra.
Como podemos concluir uma obra?
Como podemos concluir uma caminhada?
Caminhando.
Esse foi o primeiro ponto que Ele mencionou: a prática diária da
meditação.
O segundo ponto é:
Só concluímos nossa caminhada se tivermos uma meta. Chega-se a uma meta, porque se caminhou.
Se não sabemos para onde vamos e qual caminho tomar, não vamos
terminar nossa caminhada do dia.
Também se tivermos uma meta e não praticarmos, não chegaremos a
atingi-la.
Com a CONSCIÊNCIA do que queremos fazer, e PRATICANDO, com certeza
iremos concluir nossa meta.
Por isso, Ele diz:
Por isso,
o Homem Venerável termina o
dia de caminhada
Sem se afastar da ponderação e
dos recursos.
Na prática da Alquimia, Recursos e Ponderação são dois elementos:
Recurso - é o Sopro Uno do Céu Anterior, é a energia da Consciência Pura.
A energia pode atuar em diferentes níveis.
A energia de uma pessoa pode ser uma energia dispersa, confusa.
Como também pode ser uma energia concentrada, compacta.
Quando a Consciência é única e definida, a energia também é
definida.
Quando a consciência da pessoa é dispersa, confusa, a energia também
é dispersa e confusa.
É impossível termos uma consciência concentrada se a energia está
espalhada em mil outras energias, cheia de momentos de alternância.
Por isso, o Homem Superior termina o dia de caminhada sem se
afastar da ponderação e dos recursos.
Sem se afastar da energia única, genuína e pura.
E essa energia só se manifesta quando nossa consciência tem uma
prioridade, uma meta definida, centralizada, com uma diretriz.
Ponderação - ponderação é saber controlar a gradação da nossa concentração,
da nossa intensidade da busca. Sem
ponderação, ou somos dispersos ou somos fanáticos.
É preciso que acreditemos no Caminho do Tao para podermos ser
taoístas.
Sem a ponderação, no entanto, podemos um momento acredita e em
outro momento, não acreditar.
Com a dispersão, não conseguimos os recursos, ou seja, a energia
não concentra, não temos forças.
Assim, são tão importantes a ponderação e os recursos.
Só teremos recursos, se tivermos ponderação.
Por isso,
o Homem Venerável termina o
dia de caminhada
Sem se afastar da ponderação e
dos recursos.
Ele fala de se ter uma meta equilibrada, com toda a energia voltada
para essa meta e que essa meta seja constantemente praticada para se poder realmente alcançar sua realização.
Sem isso, a nossa vida é constantemente ou uma confusão ou um
conflito. Conflito conosco mesmos, ou
com os outros, com o radicalismo elevado a extremos, com dispersão em excesso,
não realizando nada, acabando morrendo na velhice sem termos feito exatamente
nada.
Dessa maneira, Ele fala da importância da ponderação.
Na prática da Alquimia, a ponderação é também chamada de Gradação
do Fogo. Ao se cozinhar, não se usam
vários graus de temperatura do fogo?
Isso se chama Gradação do Fogo.
Embora existam maravilhas em
perspectiva
Permanece quieto e
naturalmente transcende
Lao Tse nos fala da importância de não nos dispersarmos por causa
das perspectivas e maravilhas que aparecem na nossa vida.
Não devemos nos sentir seduzidos pelas maravilhas do mundo, para
permanecermos na quietude e assim, naturalmente, transcendermos essa sedução
externa. Não devemos ignorá-las, apenas
não sermos ‘pegos’.
Mestre Maa sempre nos diz uma coisa:
- Devemos manter a
consciência do meio, para que nossa consciência não seja seduzida pelas coisas
de fora; para não perdermos a quietude.
- Não devemos chamar a
atenção das outras pessoas sobre nós.
Devemos ser sempre invisíveis, devemos nos tornar menos evidentes,
devemos ser mais discretos.
Por isso, Lao Tse diz:
Como pode um senhor de dez mil
veículos
Utilizar seu corpo
levianamente sob o céu?
Ao ser leviano, perderia a
raiz
Ao ser inquieto, perderia o
governo.
O corpo é o reino. O coração
é o governante. Uma pessoa que não tem
peso no corpo, torna-se flutuante e naturalmente esse corpo não é mais
governado.
Esse foi o Capítulo de hoje.
...............
foto: Sítio das Estrelas, Janine
TAO TE CHING
O LIVRO DO CAMINHO E DA
VIRTUDE
Lao Tse, o Mestre do Tao
Tradução e Interpretação do
Capítulo 26
do Tao Te Ching, de Lao Tse,
por WU JYH CHERNG
Transcrição e Síntese de Aula
Gravada na Sociedade Taoísta do Brasil,
Rio de Janeiro, em 10 de
janeiro de 1995
Transcrição e Síntese de
Janine Milward
A tradução dos Capítulos do
Tao Te Ching foi realizada por Wu Jyh Cherng,
do chinês para o português,
e foi primeiramente publicada pela Editora
Ursa Maior,
sendo hoje publicada pela Editora Mauad, São Paulo,
Brasil
Nesta mesma Editora,
encontra-se ainda no prelo
a realização da publicação, em
breve, das interpretações de Wu Jyh Cherng
acerca os 81 Capítulos da obra máxima de Lao
Tse, o Tao Te Ching