Alcançando o extremo vazio e permanecendo na quietude da extrema quietude

Vênus através a janela e anunciando o começo de um novo dia!
foto de Janine


TAO TE CHING
O Livro do Caminho e da Virtude
Lao Tse, o Mestre do Tao

Capítulo 16

Alcançando o extremo vazio e permanecendo na quietude da extrema quietude
Os dez mil seres se manifestam simultaneamente
E, através disso, contemplamos o seu retorno
Apesar da diversidade dos seres
Cada um deles pode retornar a sua raiz
O regresso à raiz se chama quietude
Quietude se chama retornar a viver
Retornar a viver se chama constância
Conhecer a constância se chama iluminação
Desconhecer a constância é a impropriedade que provoca o infortúnio

Quem conhece a constância é abrangente
Quem é abrangente pode ser coletivo
O coletivo tem o poder da criação
A criação tem o poder do céu
O céu tem o poder do Caminho
O Caminho tem o poder do eterno
Assim,
Mesmo perdendo o corpo, não irá perecer

Interpretação de Janine Milward
para a tradução de Wu Jy Cherng

"Alcançando o extremo vazio e permanecendo na quietude da extrema quietude,"

Neste Capítulo, Lao Tse nos fala sobre a Meditação. O extremo vazio é alcançado através da meditação. A meditação é permanecer na quietude da extrema quietude.

"Os dez mil seres se manifestam simultaneamente"

O extremo vazio é o lugar do revirão do céu e da terra, aonde o Mundo da Não-Manifestação e o Mundo da Manifestação se encontram e se desencontram.

No Mundo da Manifestação, existe a coletividade dentro da unidade. No Mundo da Não-Manifestação existe apenas a unidade, o Absoluto.

Assim, quando Lao Tse menciona os dez mil seres, ele está falando da Criação sob o Tao, o Caminho. Dentro da Criação, existe a coletividade, a multiplicidade a partir do Uno Primordial.

No entanto, ao alcançar o extremo vazio e permanecendo na quietude da extrema quietude, a coletividade, a multiplicidade torna-se unidade... portanto, manifestando-se simultaneamente.

"E, através disso, contemplamos o seu retorno."

Quando, através da meditação em sua plenitude de êxtase, o homem encontra o revirão entre os Mundos da Manifestação e Não-Manifestação – o Vazio – ele retorna. Ao retornar, esse homem já é o Homem Sagrado. Retornar significa ‘encontrar sua raiz’, fusionar com o Uno Primordial, o Tao – o retorno à Fonte Primordial.

"Apesar da diversidade dos seres
Cada um deles pode retornar à sua raiz."

A verdade é que toda a Criação, em sua diversidade dos seres, em algum momento de seu ciclo de existência, sempre encontra o revirão entre os Mundos da Manifestação e Não-Manifestação, o retorno à raiz.

"O regresso à raiz se chama quietude
Quietude se chama retornar a viver
Retornar a viver se chama constância"

A fusão com o Tao – o regresso à raiz, à fonte primordial – é fundamentalmente encontrado através da quietude alcançada pela meditação. A partir do momento em que a meditação ‘prende’ o homem em sua prática espiritual (esse momento pode também ser chamado de Fixação: a fusão do Espírito com a Alma), inicia-se uma nova vida, a verdadeira vida... por isso, Lao Tse nos diz: Quietude se chama retornar a viver.

Esta nova vida, esse ‘retornar a viver’ é devido ao fato de que, neste momento, o homem passa a ser Homem Sagrado. E por que? Lao Tse continua nos respondendo ao dizer: Retornar a viver se chama constância.

A constância é a Virtude do Tao. Apenas o Tao é constante, todo o resto é duradouro, ou seja, nasce, vive, morre, nasce, vive, morre, nasce, vive, morre – dentro do Mundo da Manifestação.

O Mundo da Não-Manifestação, porém, faz parte da constância do Tao. Assim, ao deparar com o revirão entre os Mundos da Manifestação e Não-Manifestação, o homem (em sua característica de nascer, viver e morrer) torna-se Homem Sagrado (em sua constância adquirida junto ao Tao).

Reafirmando essa verdade, Lao Tse nos alerta:

"Conhecer a constância se chama iluminação
Desconhecer a constância é a impropriedade que provoca o infortúnio"

Ao tornarmos Homem Sagrado, conhecemos a Iluminação – a constância da Luz. Enquanto existimos como homens apenas, desconhecemos a iluminação – a constância da Luz.

"Quem conhece a constância é abrangente"

O Homem Sagrado, ao conhecer a constância, ao se iluminar, torna-se amplamente abrangente – por ter se fusionado com o Tao. Então, a partir desta abrangência, abrem-se outras virtudes, todas relacionadas ao Tao e ao Mundo da Não-Manifestação realizados dentro do Mundo da Manifestação:

"Quem é abrangente pode ser coletivo
O coletivo tem o poder da criação
A criação tem o poder do céu
O céu tem o poder do Caminho
O Caminho tem o poder do eterno."

O Uno Primordial traz em si toda a Criação – que é coletiva em sua diversidade de seres. Dentro da criação, existe a multiplicação dessa própria criação. Sendo a criação uma manifestação espelhar do Tao da Criação, essa criação mesma tem o poder do céu – de onde toda a criação tem seu berço. O céu, por sua vez, ao ser uma manifestação espelhar do Tao da Criação, tem o poder do Tao, O Caminho.

O Tao, O Caminho, sendo a própria constância, tem o poder do eterno.

Em outro Capítulo, o Capítulo 25, Lao Tse nos reforça esse conceito através dos versos:

"O homem se orienta pela terra
A terra se orienta pelo céu
O céu se orienta pelo Caminho, o Tao
O Caminho, o Tao, se orienta por sua própria natureza."

Lao Tse, finaliza então, o Capítulo 16, nos revelando nossa verdadeira natureza – que pode ser alcançada a partir do homem se tornar Homem Sagrado em sua Iluminação, aprontando-se para, então, trilhar seu caminho da Imortalidade ou Liberação:

"Assim, mesmo perdendo o corpo, não irá perecer"

Ao fusionar-se com o Tao, o Homem Sagrado atinge sua Iluminação, a constância da Luz, em sua mente expandida em consciência iluminada e infinita. No entanto, também seu corpo físico deve se tornar um Corpo de Luz, trazendo-lhe vida iluminada e infinita – a Imortalidade ou Liberação.

A transmutação do corpo físico em Corpo de Luz realiza-se através da Alquimia do Caldeirão. O Caldeirão é o corpo físico que é trabalhado pelo Homem Sagrado com mente iluminada. A mente iluminada vai doando sua Luz de constância do Mundo da Não-Manifestação ao corpo físico do Mundo da Manifestação (corpo esse que nasce, vive e morre, preso à Roda da Vida, das Encarnações).

Quando todo esse trabalho é terminado, o Homem Sagrado possui não apenas consciência iluminada e infinita como também vida iluminada e infinita. Acredita-se que o Corpo de Luz não realmente morra, e sim, ascenda aos céus.

Por isso, Lao Tse nos diz que o Homem Sagrado mesmo perdendo o corpo, não irá perecer. Ou seja, perde seu corpo físico, sim, porém não sua vida.

Desta forma, consciência iluminada e infinita e vida iluminada e infinita fusionam-se plenamente à constância do Tao da Criação.

Esses são os Caminhos da Iluminação e da Imortalidade ou Liberação.

COM UM ABRAÇO ESTRELADO,
Janine Milward

Conheça minha Página com minhas interpretações dos 17 primeiros Capítulos do Tao Te Ching, acessando
http://sublimecaminhosublimevirtude.blogspot.com.br/

.............................

TAO TE CHING
O Livro do Caminho e da Virtude
Lao Tse, o Mestre do Tao

Capítulo 16

Interpretação de Janine Milward

A tradução dos Capítulos do Tao Te Ching foi realizada por Wu Jyh Cherng,
do chinês para o português
e foi primeiramente publicada pela Editora Ursa Maior
e hoje é publicada pela Editora Mauad, São Paulo.

Na Editora Mauad, São Paulo, Brasil,
encontra-se a realização da publicação,
das interpretações de Wu Jyh Cherng
acerca os 81 Capítulos da obra máxima de Lao Tse, o Tao Te Ching

o Homem Sagrado se realiza pelo ventre e não pelo olho




TAO TE CHING – O LIVRO DO CAMINHO E DA VIRTUDE
LAO TSE – tradução de Wu Jyh Cherng e interpretação de Janine Milward

Capítulo 12

As cinco cores tornam os olhos do homem cegos
As cinco notas tornam os ouvidos do homem surdos
Os cinco sabores tornam a boca do homem insensível
Carreiras de caça no campo tornam o coração do homem enlouquecido
Os bens de difícil obtenção tornam a caminhada do homem prejudicada

Por isso, o Homem Sagrado se realiza pelo ventre e não pelo olho
Assim, afasta este e escolhe aquele

Interpretação de Janine Milward

Neste Capítulo, Lao Tse nos ensina sobre o Mundo da Manifestação e o Mundo da Não-Manifestação.

Ele nos diz que tudo aquilo que existe no Mundo da Manifestação é importante sim, porém não deve ser a única importância na vida do homem. E mais ainda, não deve ser considerado importante mesmo...

O Mundo da Manifestação existe fundamentalmente para que o homem tenha a oportunidade de se tornar Homem Sagrado. Luz é matéria e é na matéria, dentro da materialização do Mundo da Manifestação que a Alquimia do Caldeirão pode acontecer, ou seja, o homem tornar-se Homem Sagrado através do Caminho da Iluminação e do Caminho da Imortalidade ou Liberação.

Assim, mesmo pertencente ao Mundo da Manifestação e colhido por suas belezas e benesses.... o homem não deve se desviar de seu Caminho, não deve prejudicar sua caminhada.

O Mundo da Manifestação é de uma beleza incomparável, não é mesmo? Porém, esse mundo preenche nossos olhos e nosso coração por ser o mundo que vemos, que ouvimos, que tocamos, que desejamos, que saboreamos, que lutamos, vencemos e perdemos.

As cinco cores tornam os olhos do homem cegos
As cinco notas tornam os ouvidos do homem surdos
Os cinco sabores tornam a boca do homem insensível
Carreiras de caça no campo tornam o coração do homem enlouquecido
Os bens de difícil obtenção tornam a caminhada do homem prejudicada

O Mundo da Não-Manifestação não pode ser visto, nem ouvido, nem tocado, nem desejado, nem saboreado, nem lutado, vencido ou perdido. Ele apenas é. Ele está além do Mundo da Manifestação e não pode ser percebido ou sentido ou compreendido através da linguagem ou da compreensão que trabalha no mundo da manifestação.

Por isso, Lao Tse nos diz

Por isso, o Homem Sagrado se realiza pelo ventre e não pelo olho
Assim, afasta este e escolhe aquele

O olho significa o Mundo da Manifestação, o mundo do visível. O ventre significa o Mundo da Não-Manifestação, o mundo do não-visível.

O ventre é o lugar interior que abriga o Ch'i, a energia do Tao da Criação. É o lugar da ligação entre o homem do Mundo da Manifestação com o Homem do Mundo da Não-Manifestação.

O Ch'i, a energia do Tao da Criação, entra e sai de nosso corpo através, fundamentalmente, da expansão da consciência realizada através do ato da Meditação contínua.

Na meditação, a respiração deve ser bastante profunda e tranqüila, passando pelas narinas e indo até o ventre, o lugar interior que abriga o Ch'i. E, na meditação, estamos de olhos fechados, semi-cerrados, voltados para dentro, abrindo espaço para o terceiro olho, o Ajna Chacra, o Chacra do Conhecimento.

Lao Tse, no Capítulo 5, nos fala sobre a energia do Ch'i na meditação:

O espaço entre o céu e a terra assemelha-se a um fole
É um vazio que não distorce
Seu movimento é a contínua criação

A contínua criação é a Alquimia do Caldeirão conseguida através da Meditação. Primeiramente, o homem senta em sua tranqüilidade, cerra os olhos para o mundo externo e volta-se para seu mundo interior através da respiração que une o homem ao céu e à terra pelo Ch'i. A respiração é considerada o Sopro Primordial, a Alma, que deverá ser fusionada ao Espírito, à Consciência para em sua fusão fazerem nascer o Elixir da Vida que proporciona o mergulho na verdadeira meditação. O Elixir da Vida garante a Fixação do estado da meditação. Após isso, o homem passa por uma série de questões que vão se apresentando ao longo do processo contínuo do ato de meditar cotidianamente: no Caminho do Caminhante surgem as ilusões, desilusões, cansaço, falta de perseverança, encontros e desencontros, as Rodas do Moinho..... Para tanto, o tempo e a perseverança são importantíssimos
As Rodas do Moinho são energias que vão limpando todo o corpo físico, aprontando o homem para sua limpeza profunda e seu recebimento da Iluminação da Consciência, a mente infinitizada.

Assim, primeiramente dentro da Alquimia do Caldeirão, para ser alcançado o estado de Iluminação, é preciso fechar a porta do Mundo da Manifestação e deixar-se ingressar no Mundo da Não-Manifestação, ou seja, realizar-se pelo ventre e não pelo olho....

Por isso, o Homem Sagrado se realiza pelo ventre e não pelo olho
Assim, afasta este e escolhe aquele

A segunda etapa da Alquimia do Caldeirão - e a mais difícil a ser alcançada - é a Imortalidade ou Liberação. Para tanto, o Homem Sagrado deverá abandonar plenamente sua atenção para os chamamentos do olho, do Mundo da Manifestação. A verdadeira Alquimia do Caldeirão - entendendo-se Caldeirão como o corpo físico a ser transmutado em Corpo de Luz - só pode acontecer dentro do Mundo da Não-Manifestação trabalhado pela Consciência Iluminada no Mundo da Manifestação.

Lao Tse nos diz, então, que a escolha do Homem Sagrado é pelo ventre e não pelo olho. Ele afasta o Mundo da Manifestação e escolhe o Mundo da Não-Manifestação. Ele afasta o desejo e suas multiplicidades de manifestações e escolhe o não-desejo em sua unicidade.
..............

O Mundo da Manifestação é para ser vivido em sua plenitude, certamente. Porém, é sempre bom lembrarmos que Luz é matéria e estamos encarnados no Planeta Terra fundamentalmente para aqui podermos processar nosso corpo materializado, o corpo físico, em Corpo de Luz.

............................................
COM UM ABRAÇO ESTRELADO,
Janine Milward

As interpretações dos poemas do Tao Te Ching apresentadas são realizadas por Janine Milward, a partir da tradução de Cherng bem como baseada em seus ensinamentos e comentários.

Tao Te Ching,
O Livro do Caminho e da Virtude
Lao Tse, o Mestre do Tao
Tradução e Interpretação dos 81 Capítulos
do Tao Te Ching, de Lao Tse,
por WU JYH CHERNG

A tradução dos Capítulos do chinês para o português foi primeiramente publicada pela Editora Ursa Maior, SP, e posteriormente publicada pela Editora Mauad, São Paulo, Brasil.

Nesta mesma Editora, encontram-se também as interpretações de Wu Jyh Cherng acerca os 81 Capítulos da obra máxima de Lao Tse, o Tao Te Ching.

O Caminho é o Vazio

Starlit band of the Milky Way. Photo by Larry Landolfi via NASA
http://en.es-static.us/upl/2012/05/milky_way_Larry_Landolfi.jpeg



O Caminho é o Vazio

Janine Milward


O Capítulo 4 do Livro do Caminho e da Virtude, Tao Te Ching, de Lao Tse, que eu transcrevo abaixo (a partir da belíssima e confiável tradução de Wu Jyh Cherng) e tento interpretá-lo, encerra em si mesmo, de forma absolutamente simples e em poucas palavras, todo o conjunto de conceitos sobre o Tao e o Te, o Caminho e a Virtude, e consequentemente, todo o percurso a ser realizado pela Criação – fundamentalmente pelo homem (por ser o homem aquele que interpreta a própria criação bem como a re-cria), a partir do desenvolvimento de sua mente a tornar-se consciência infinita e iluminada bem como sua posterior realização alquímica e espiritual de sua vida a tornar-se vida infinita e iluminada – o Caminho da Iluminação e o Caminho da Liberação ou Imortalidade.

O Caminho é o Vazio
E seu uso jamais o esgota
É imensuravelmente profundo e amplo,
como a raiz dos dez mil seres

Cegando o corte
Desatando o nó
Harmonizando-se à luz
Igualando-se à poeira

Límpido como a existência eterna
não sei de quem sou filho
Venho de antes do Rei Celeste (3)

Tao é o Caminho.

Na primeira estrofe do Capítulo 4 do Tao Te Ching, o Livro do Caminho e da Virtude, Lao Tsé nos elucida melhor sobre o Tao, o Caminho, ao nomeá-lo de Vazio.

O Caminho é o Vazio

Sendo o Tao o Caminho, sua realização acontece através do ato do Caminhante Caminhar seu Caminho rumo ao seu Tao. Esse Caminho pode ser chamado de Vazio, de entrar no Vazio. É somente através do Vazio Absoluto que o Caminhante consegue Caminhar seu Caminho e alcançar seu Tao.

Lao Tsé continua:
e seu uso jamais o esgota

O uso desse Vazio jamais o esgota porque o Tao é inesgotável ou mesmo além da possibilidade de ser esgotável ou inesgotável – desde que é o Tao anterior à própria Criação do Nada, do Tudo e do Todo, anterior até ao próprio Vazio, que é o que mais próximo se lhe assemelha.

E Lao Tsé, ainda querendo dizer mais sobre o Vazio, continua:

É imensuravelmente profundo e amplo,
como a raiz dos dez mil seres

Os "dez mil seres" simbolizam a Criação e a raiz dessa Criação é oriunda do Vazio – que "é imensuravelmente profundo e amplo". Novamente, nesses versos, nos é dito que o Vazio é imensurável, ratificando o fato de seu uso jamais o esgotar.

Assim, quando o Caminhante se coloca em seu Caminho rumo ao seu Tao – e o encontra – torna-se o Homem Sagrado, aquele que se fusiona com a raiz da Criação e a imensurabilidade e o inesgotamento do Vazio que é a nomeação mais próxima do Tao, do Caminho.

Na segunda estrofe, Lao Tsé nos fala sobre o Te, A Virtude.

Cegando o corte
Desatando o nó
Harmonizando-se à luz
Igualando-se à poeira

A Virtude é a maneira pela qual o Caminhante deve Caminhar seu Caminho rumo ao seu Tao, O Caminho.. Apenas que a Virtude pode ser nomeada, identificada, através da ação, dos gestos, das palavras, de nossa condução em nosso Caminho. O Tao aliado ao Te, o Caminho aliado à Virtude, faz acontecer O Mestre, aquele que realiza em si mesmo o Caminho através a prática da Virtude.

Dessa forma, Lao Tsé nos diz para acalmarmos nossa mente e buscarmos a expansão da consciência a fim de a tornamos iluminada e infinita (esse é o Caminho da Iluminação) e dessa forma, libertemos a mente de desvios de conduta, bloqueios, vícios, etc (sejam estas questões adquiridas nesta vida ou advindas de vivências sucessivas anteriores através nosso Karma:

Cegando o corte
Desatando o nó

Wu Jyh Cherng nos diz, em sua aula de interpretação do Capítulo 4:
Mestre Maa, nosso Mestre, uma vez me disse algo muito interessante: “Cada um de nós tem uma consciência. Essa consciência é como se fosse uma luz. Quanto maior o grau de consciência, mais lucidez possuímos”.

Nossa expansão de consciência pressupõe que entrelacemos nossa consciência pessoal à Consciência coletiva e que possamos, da mesma forma, entrelaçar nossa consciência pertencente ao Céu Posterior com nossa Consciência pertencente ao Céu Anterior, ou seja, consciências pessoal e coletiva fusionadas e buscando a união com a Consciência do Absoluto.

Alcançando o Caminhante o Tao da Iluminação – o patamar da consciência iluminada e infinita -, é preciso então que se dedique (em sua Alquimia do Caldeirão de seu corpo físico e de seu corpo espiritual ou corpo de luz) a se harmonizar com sua Luz.... e para tanto, entrando no Vazio. Por isso, Lao Tsé nos diz:

Harmonizando-se à luz
Igualando-se à poeira

Na terceira estrofe, Lao Tsé nos revela como nos harmonizarmos com a Luz do Tao e entrarmos no Vazio: a consciência de que somos nós mesmos o Tao e assim sendo, é preciso que ao Tao retornemos, nos fusionemos. Esta é a Alquimia do Caldeirão, ou seja, o Caminhante torna-se Homem Sagrado a partir do Tao da Iluminação e trabalha seu corpo físico já com a plenitude e infinitude de sua consciência iluminada, e transforma, transmuta, esse corpo físico em Corpo de Luz, alcançando então, o Tao da Imortalidade – vida e consciência iluminadas e infinitas.

Límpido como a existência eterna
não sei de quem sou filho
Venho de antes do Rei Celeste

Ao tornar-se Homem Sagrado, Lao Tsé pôde nos contar sobre o Mistério dos Mistérios, ou seja, que o Tao é anterior à própria Criação – é a existência eterna. O Tao é impessoal e Absoluto. Dessa forma, o Homem Sagrado, ao se fusionar ao Tao, descobre sua impessoalidade e infinitude:

Límpido como a existência eterna
não sei de quem sou filho

Fundamentalmente, mais que se descobrir anterior à própria Criação, o Homem Sagrado descobre que ele mesmo, fusionado ao Tao, ao Caminho, é anterior ao próprio suposto Criador, que Lao Tsé neste Capítulo, nomeia de Rei Celeste - e que venho nomeando enquanto Tao da Criação.

Não sei de quem sou filho
Venho de antes do Rei Celeste

"Rei" é a Consciência iluminada e celestial, a Suprema Consciência, Deus-Onipotente, O Criador que com sua Consciência cria a Criação, espelho de sua Consciência Suprema.

Sendo assim, o Homem Sagrado é aquele que alcança, se fusiona com a Consciência Suprema, com o Rei Celeste, e finalmente diante do Vazio do Tao, compreende o Tao além de qualquer compreensão, além de qualquer palavra, além do além... Porque sobre o Tao não se fala, apenas nos deixamos preencher e permear pelo Tao.

Dessa maneira, o Homem Sagrado, dentro da infinitude e impessoalidade do Tao, compreende que "Não sei de quem sou filho, Venho de antes do Rei Celeste".

Esse é o Caminho. Esses são o Caminho da Iluminação e o Caminho da Imortalidade.

E "O Caminho é o Vazio".

..............

O Tao Te Ching, o Tratado do Caminho e da Virtude, é uma obra extremamente concisa e que, no entanto, "é imensuravelmente profunda e ampla, como a raiz dos dez mil seres". A meu ver, o Capítulo 4 é um dos que mais expressa o Tao e o Te, o Caminho e a Virtude em sua concisão e em sua amplitude. E seus primeiro e último versos expressam a estrutura fundamental da apreensão do Tao diante de todas as outras apreensões espirituais e religiosas que conheço:

O Caminho é o Vazio
............
Venho de antes do Rei Celeste

COM UM ABRAÇO ESTRELADO,
Janine Milward

Foto: Starlit band of the Milky Way. Photo by Larry Landolfi via NASA
http://en.es-static.us/upl/2012/05/milky_way_Larry_Landolfi.jpeg

Trecho extraído do meu livro
O CAMINHANTE CAMINHANDO SEU CAMINHO
http://ocaminhantecaminhandoseucaminho.blogspot.com.br/

Quem valoriza a palavra, realiza a obra sem deixar rastros

TAO TE CHING
O Livro do Caminho e da Virtude
Lao Tse, o Mestre do Tao
Capítulo 17

Interpretação de Janine Milward

A Terra é um lugar absolutamente privilegiado para acolher a Vida, não é mesmo? Aqui, através dos milhares e milhares de anos, houve a evolução da vida assim como a conhecemos até os dias de hoje. Aqui, o homem tem sua verdadeira oportunidade de desenvolver sua mente, de realmente se tornar o Caminho do Meio entre o Céu e a Terra. Aqui, temos a honra de podermos optar por seguirmos os Caminhos da Iluminação e da Liberação através a infinitização e iluminação da consciência e da vida...

No entanto, sendo um planeta de plenitude de materialização, a Terra é um lugar de Trabalho e de Iluminação sim, mas que cobra, e cobra muito por estas nossas encarnações, poro toda essa natureza e seres que compõem este Planeta.

A Terra é um lugar bastante rico pois possui ouro, muito ouro. O ouro é um material muito escasso em todo o universo que conhecemos. Dentro da Cosmologia Espiritual, é exatamente a Terra um lugar a Meio Caminho a Caminho do Céu..... por possuir ouro, é aqui que o homem se torna Homem Sagrado em seu Corpo de Luz, ou corpo reluzente como o ouro do espírito.

E é por isso mesmo que a Terra, espiritualmente falando bem como materialmente pensando, é um planeta que traduz a necessidade do Trabalho não apenas no sentido de todos os seres buscarem e atuarem em relação às suas sobrevivências mas também no sentido de irem evoluindo plenamente dentro da amplitude da materialização. E todos sabemos que Luz é Matéria. Por isso, a Terra é um Planeta privilegiado porque proporciona aos seus sêres e à sua natureza, a evolução da vida, o desenvolvimento da mente, a infinitização e iluminação da consciência e posteriormente também da própria vida, da própria matéria.

No entanto, por estar assim tão embasada dentro de sua intrínseca materialidade, de uma maneira geral, a Terra produz seres pensantes, homens que usam suas mentes apenas para entenderem que a vida existe por si mesma, somente para nutrir a sua própria materialidade, ausentes de espiritualidade, de verdadeiro contacto, da plena fusão entre o Céu e a Terra.

Assim, de uma maneira geral, existe uma certa confusão entre o trabalho e o Trabalho a serem realizados neste planeta de encarnação. E, fundamentalmente, existe um imensa confusão entre iluminação e Iluminação a serem alcançadas nesta vida...

Nosso trabalho é aquele que nos traz o ouro que precisamos para trocar pela nossa sobrevivência, aquilo que nos diferencia dos animais, que trabalham naturalmente, buscando por uma natural sobrevivência, sem estarem atados ao ouro e seu pseudo valor....

Nosso Trabalho (com t maiúsculo) é aquele que faz de nossa vida realmente válida de ser vivida, no sentido de ajudarmos uns aos outros a sobreviverem e viverem suas vidas, no sentido de exercermos o verdadeiro valor da palavra Servir. É por isso que estamos todos aqui reunidos nesse Planeta.

Nossa iluminação é aquela que nos é traduzida como cultura, como aprendizado, com troca de informações e comunicações, como a riqueza do desenvolvimento da mente no sentido de aprender e apreender cada vez mais sobre o universo que nos rodeia e como lidarmos com esse aprendizado, como vivenciarmos nossa vida dentro do Planeta Terra.

Nossa Iluminação (com i maiúsculo) é aquela que nos é traduzida, não apenas através do pseudo saber que os livros e toda a tecnologia dos dias de hoje podem nos oferecer e ensinar, mas fundamentalmente, a Iluminação de nossa mente, de nossa consciência no sentido de sua infinita amplitude, de sua profunda luz, de sua possibilidade de ir apreender a sabedoria do Tao da Natureza – usando menos o racional e mais as verdades brotadas a partir do mundo da interiorização, da meditação, da fusão do Homem Sagrado com o Céu e a Terra.

.........................

Assim, no Capítulo 17, Lao Tse vem nos confrontar com estas verdades planetárias – o trabalho e a iluminação.... O Trabalho e a Iluminação – e como podemos usar nossa mente tanto no sentido de apenas exercitá-la em sua materialidade de vida, dentro da riqueza da vida material bem com no sentido de vivermos nossa vida no Planeta sim, porém, voltados fundamentalmente e essencialmente para a nossa vida espiritual, para nossa riqueza espiritual.

Para tanto, o Mestre do Tao vai definindo as possíveis diferentes manifestações da inter-relação entre a vida material e a vida espiritual, para as mentes voltadas apenas para a materialidade e para as mentes já começando a buscar seu desenvolvimento dentro do caminho da espiritualidade.

Do supremo, o inferior tem apenas ciência da existência
Do estado que o sucede, intimidade ou admiração
Do estado seguinte, temor ou desprezo

Então, existem as pessoas que possuem a ciência da existência da espiritualidade.... existem aquelas que não apenas possuem essa ciência, com também exercem uma vida já voltada para a intimidade ou admiração do mundo espiritual. E existem aquelas pessoas que se amedrontam ou que revelam seu desprezo em relação à tudo aquilo que não seja tangível, materializado, concretizado, dentro do Mundo da Manifestação...

Penso que também Lao Tse não apenas está confrontando os dois mundos: da materialidade e da espiritualidade. Ele está nos dizendo que, mesmo dentro do mundo da espiritualidade, existem graus mais elevados ou menos elevados de compreensão da verdadeira espiritualidade.

Sabemos todos que é o Mundo da Não-Manifestação ou Céu Anterior, o Wu Wei, que faz nascer de si mesmo, com sua imagem de desejo, o Mundo da Manifestação ou Céu Posterior, o Tai Chi, através suas realizações concretas do Yang e do Yin, da Luz e da Não-Luz, do masculino e do feminino.

Lao Tse segue em sua jornada e nos revela, já na estrofe seguinte:

Não havendo suficiente confiança, surge a desconfiança

Ainda se voltarmos um pouco para a primeira estrofe, em sua primeira linha, veremos que a palavra ‘supremo’ não está escrita com s maiúsculo. Penso que Lao Tse ali demonstra que as pessoas estão confusas, ainda distantes da verdadeira espiritualidade. E é por isso que o Mestre inicia a segundo estrofe ainda nos chamando atenção para o fato de que ‘não havendo suficiente confiança, surge a desconfiança’. Ou seja, se a espiritualidade que o homem, através de sua mente, não for desenvolvida em sua verdadeira amplitude espiritual e sim apenas em sua possibilidade de materialização, não se está tratando ainda da verdadeira espiritualidade advinda do Mundo da Não-Manifestação, apenas um prólogo, um ensaio, um simples s minúsculo para se falar do supremo.

Quando surge a verdadeira espiritualidade, quando o homem se torna o Homem Sagrado plenamente fusionado ao Tao da Criação, trilhando seu Caminho da Iluminação e da Liberação, com mente iluminada e infinita e vida infinita e iluminada, aí sim, aí não existe lugar para a desconfiança, aí existe apenas a plena confiança.....

Quem valoriza a palavra, realiza a obra sem deixar rastros

A verdadeira confiança surge da verdadeira espiritualidade – que Lao Tse, neste Capítulo 17, chama de ‘a palavra’. Valorizando a espiritualidade, o Homem Sagrado realiza sua vida de Trabalho e de Iluminação neste Planeta, com verdadeira humildade – virtude máxima do Tao e do Te, o Caminho e a Virtude. Nesse caso, aqui também ‘a palavra’ surge como aquela que parte do Mestre e do Tesouro do Espírito, o Conhecimento das verdades do Céu e da Terra.

Por isso, o Mestre nos diz que o Homem Sagrado ‘realiza a obra sem deixar rastros’ bem como em vários outros Capítulos também teremos a oportunidade de nos depararmos com o conceito da plenitude da realização dentro da absoluta humildade.

Por que? Porque, Assim, o povo achará que surgiu por si, naturalmente.

...................
TAO TE CHING
O Livro do Caminho e da Virtude
Lao Tse, o Mestre do Tao

Capítulo 17

Interpretação de Janine Milward

A tradução dos Capítulos do Tao Te Ching foi realizada por Wu Jyh Cherng,
do chinês para o português
e foi primeiramente publicada pela Editora Ursa Maior
e hoje é publicada pela Editora Mauad, São Paulo.

Na Editora Mauad, São Paulo, Brasil,
encontra-se a realização da publicação,
das interpretações de Wu Jyh Cherng
acerca os 81 Capítulos da obra máxima de Lao Tse, o Tao Te Ching